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Por que a Marvel Studios mudou os poderes da Ms. Marvel (provavelmente)

Todo mundo já fez toda comparação e piada possível com o fato de a Marvel Studios ter transformado a Ms. Marvel em um Lanterna Verde (ou seria uma Lanterna Violeta?). Todo mundo já reclamou bastante das mudanças nos poderes da personagem para o seu seriado na Disney+. Mas, com a estreia do primeiro trailer completo do seriado e a visualização mais clara de como seus poderes funcionarão na série, a pergunta retorna: por que a Disney/Marvel decidiu mudar os poderes da Kamala Khan?

Afinal, quais são os poderes originais da Ms. Marvel?

A Kamala Khan tem poderes de polimorfia; são poderes de manipulação de suas moléculas, e ela faz uma série de coisas com isso.

Na maioria das vezes, Kamala aumenta partes do próprio corpo, como a já clássica mão gigante pra meter um socão nos inimigos, mas ela também pode esticar os braços à la Reed Richards ou aumentar todo o corpo ou ficar gigante à la Hank Pym. Além disso, um poder utilizado com menos frequência em suas histórias é o de alterar a própria aparência, o que ela usa quando precisa se disfarçar em situações específicas.

Alguns outros efeitos da modificação de são corpo são um fator de cura acelerado (mas não constante — ela só se cura quando não está aumentando nenhuma parte do corpo), e também um certo grau de superforça quando cresce de tamanho, mas que não chega a figurar entre os mais fortes do Universo Marvel.

Um pouco de contexto

Como já é de amplo conhecimento, em tempos mais sombrios para a Marvel, a editora saiu vendendo os direitos de vários de seus personagens para diversos estúdios de cinema, na esperança de algo dar certo. É o que fez com que o Hulk caísse na Universal, o Homem-Aranha na Sony e os X-Men na Fox. Um bom tempo depois disso, a própria Marvel deu início ao seu projeto de universo compartilhado no cinema com Homem de Ferro, de 2008, que culminou no fenômeno cultural Os Vingadores em 2012. Disso, você já sabe.

O enorme sucesso de Vingadores causou mudanças em toda a cadeia de produção da Marvel. Agora, o foco era total na superequipe formada por Capitão América, Homem de Ferro, Thor e etc. Mas, historicamente, os quadrinhos de maior sucesso da editora sempre foram o universo dos mutantes e as revistas dos X-Men. A roteirista de quadrinhos Gail Simone, que já trabalhou tanto na Marvel quanto na DC, comentou no Twitter que, num dado momento, os X-Men eram tão grandes que a Marvel era essencialmente “duas editoras”: X-Men e “o Resto”. Os leitores dos X-Men são fiéis a esse núcleo de histórias. Mesmo assim, o que a Marvel fez foi efetivamente e deliberadamente diminuir a importância da sua linha mutante o máximo que fosse possível — justamente para não fortalecer uma marca que não estava em suas mãos no cinema, que é hoje o braço mais lucrativo da corporação:

[…] Não é segredo que, por conta de uma série de escolhas infelizes da Marvel em tempos mais difíceis, eles abriram mão de direitos cinematográficos por muito pouco dinheiro. E isso causou alguns problemas e, de repente, os X-Men não deveriam mais ser considerados o ativo primário da Marvel.

Os mutantes foram removidos de material promocional, a ênfase para brinquedos e produtos foi para outro setor; não é segredo da indústria, é informação conhecida. Está tudo bem, é propriedade intelectual deles. […]

Então, se os leitores dos X-Men, que são leitores fiéis, não têm mais os seus mutantes para ler e muito provavelmente não vão procurar diretamente os gibis dos Vingadores como substitutos, como a editora queria, para onde eles vão?

Capa de The Uncanny Inhumans 1 (Os Fabulosos Inumanos), de 2015.

A solução da Marvel? Trabalhar os Inumanos.

Os Inumanos são um grupo de personagens (uma superequipe, um raça e uma nação) que surgiu inicialmente nas páginas do Quarteto Fantástico e sempre teve um papel no máximo secundário no Universo Marvel. Mas, naquela época, as revistas dos Vingadores estavam sendo comandadas por Jonathan Hickman, e parte de sua complicada trama envolvia Raio Negro, o rei dos Inumanos. Depois de uma série de acontecimentos complicados demais para explicar aqui, e que envolviam a invasão da Terra por Thanos (no arco Infinito), Raio Negro dispara a bomba terrígena, uma arma que explode e espalha a nuvem terrígena pela Terra. O “terrígeno” é a substância que desperta a “inumanidade” nos seres humanos que têm esse traço genético dentro de si. Essa nuvem se espalha pelo planeta e começa a criar um monte de inumanos… e a matar mutantes. Percebe o que estava acontecendo?

Os quadrinhos dos X-Men começaram a minguar à medida em que a Marvel investia pesado em trabalhar os Inumanos como os “novos mutantes” de sua linha de histórias — chegando até a criar, em 2015, uma revista chamada The Uncanny Inhumans (Os Fabulosos Inumanos), tomando emprestado o epíteto “Uncanny” classicamente associado aos mutantes, que desde sempre tiveram a revista chamada The Uncanny X-Men (Os Fabulosos X-Men). E, em 2016, foi lançada a minissérie Morte dos Mutantes (Death of X), na qual a névoa terrígena mata vários importantes membros dos X-Men, incluindo Ciclope.

A ideia era fazer com que pessoas comuns se tornassem “inumanos” do nada, muitos deles com transformações monstruosas, e assim reproduzir as tramas de preconceito e segregação que sempre foram trabalhadas em X-Men. O que, digamos… não colou.

Mas um dos filhotes (talvez único?) mais bem-sucedidos dessa fase foi justamente a Ms. Marvel. A Kamala Khan ganha seus poderes com a nuvem terrígena, ou seja, ela é uma inumana. A personagem surge nessa fase das publicações da Marvel e, ao longo de suas primeiras histórias, interagiu até que bastante com o resto do elenco inumano da editora. Mas, com o tempo, os inumanos foram perdendo relevância, e a ênfase na inumanidade da personagem foi também sendo deixada de lado. Hoje, a Ms. Marvel é uma personagem muito mais independente, e também muito mais relacionada a núcleos como os Vingadores ou a equipe que ela mesma fundou com outros jovens heróis (como o Miles Morales), os Campeões.

Por que mudar?

Bem… as coisas mudam. A Marvel foi comprada pela Disney, que depois disso também comprou a Fox e yada, yada, yada, os X-Men estão de volta para as mãos da Marvel Studios. Isso você também já sabe.

Mas antes disso, a Marvel tentou fazer os Inumanos acontecerem. Em setembro de 2017 foi lançado o seriado de tv Inumanosque durou uma única curta temporada de 8 episódios e foi um enorme fiasco. Mesmo com as tramas relacionadas a inumanos também se estendendo, por exemplo, à serie dos Agentes da SHIELD (esta sim, um relativo sucesso), Inumanos foi muito mal recebido e consequentemente cancelado.

Sabe o que também aconteceu em 2017, alguns meses depois de Inumanos? A aquisição da Fox pela Disney. Claro, uma coisa não é consequência da outra (com certeza, são processos que aconteceram em paralelo, na verdade) mas existe uma curiosa correlação entre os dois.

  • Setembro/2017: Inumanos é lançado.
  • Novembro/2017: Inumanos acaba e é muito criticado.
  • Dezembro/2017: Disney compra a Fox.
  • Maio/2018: Inumanos é cancelado.

Com a volta dos mutantes para a Marvel Studios, a editora Marvel voltou a trabalhar esse grupo de personagens (inclusive com um bombástico “reboot” nas mãos de, ora vejam só, Jonathan Hickman, um sucesso de crítica, público e publicidade). E se eles podem voltar a trabalhar os mutantes… pra que trabalhar os Inumanos? Em 2018 (ora, vejam só!) a Marvel lançou a minissérie A Morte dos Inumanos, na qual ocorre, bom… a morte dos inumanos. Hoje, não existem mais revistas dos personagens, e a única inumana ativa é, justamente, Kamala Khan.

Portanto, a Ms. Marvel já é uma personagem razoavelmente distanciada de sua origem inumana, um movimento que a editora fez para que o destaque voltasse à sua equipe de maior sucesso histórico, os mutantes. A mudança dos poderes da personagem em seu seriado solo pode ter relação com isso: separar por completo sua versão dos quadrinhos, associada aos Inumanos, de sua versão nas telas. Esse despertar inumano de Kamala tem a ver com uma mudança em seu corpo, iniciada pela névoa terrígena. Quanto menos seus poderes tiverem a ver com uma transformação corporal, melhor. Agora, eles veem de algum dispositivo talvez místico (algo que ligue com Dr. Estranho ou Shang-Chi), talvez cósmico-tecnológico (mais provável, que faria uma ponte com Capitã Marvel).

Além disso, outra possibilidade é a tentativa de se distanciar de outra propriedade que a Disney recuperou ao comprar a Fox: Quarteto Fantástico. OK, isso já um pouco mais “bobo”, mas… como já foi dito, existe uma interseção, principalmente visual, entre os poderes da Ms. Marvel e os do Sr. Fantástico. Em filmes separados, já seria repetitivo — num eventual crossover, ficaria pior ainda. Então, é algo a se considerar.

O que perdemos com essa mudança?

Escolhas, na ficção, têm significado. Por mais que que Ms. Marvel tenha sido uma revista criada num momento muito específico e seus poderes, na “prática”, tenham sido criados por causa dessa encruzilhada de mudanças editoriais daquele momento histórico, a roteirista criadora da personagem, G. Willow Wilson, não utilizou esse contexto apenas para explicar poderzinhos.

Ms. Marvel é uma revista que costuma tratar de temas relacionados ao amadurecimento durante a adolescência mas, mais especificamente, à interseção entre esse momento e a herança cultural que carregamos. Kamala é uma menina de família americana de origem paquistanesa morando numa cidade adjacente a Nova York (onde tudo de mais super-heroico acontece na Marvel), e que sempre foi fã dos heróis e, principalmente, da Capitã Marvel, ex-Miss Marvel. Sua caracterização é informada por todas essas influências. Um poder que transforma seu corpo, num momento de tantas mudanças hormonais como é a adolescência, é uma escolha muito significativa.

Ao fim de sua primeira história solo, Kamala sai das névoas terrígenas e se vê transformada fisicamente na Capitã Marvel (no uniforme antigo de Ms. Marvel — imagem acima). É quando seus poderes se cruzam com sua herança cultural e étnica. Kamala é uma personagem que navega nesses temas, que precisa lidar com a transformação de seu corpo e com a possibilidade de não ser ela mesma. Ela pode ser outra pessoa, de outra etnia, não ter que lidar com todos os problemas e preconceitos que fazem parte de seu dia a dia por conta de sua cor de pele. Ao mesmo tempo, esses poderes a colocavam no meio de outro conflito, aquele que a Marvel tentou fazer acontecer, a metáfora para preconceito racial que antes era dos mutantes mas naquele momento era com os inumanos — algo que também refletia o arco da Kamala.

Um poder que vem de um… anel mágico (???) pode matar boa parte dessas metáforas muito bem empregadas pela roteirista G. Willow Wilson nas histórias originais. Claro, tudo pode ser adaptado, existem soluções para isso (ela continua sendo uma menina de origem paquistanesa — talvez a ideia passe por fazê-la escolher sua herança cultural ou a vida super-heroica… mas isso, só saberemos assistindo), mas corre-se o risco de achatar as camadas da composição da personagem em prol de mais uma manobra “editorial” da Marvel.

Tudo isso, só saberemos quando o seriado estrear, em 8 de junho. Até lá, só o que dá pra fazer é dizer que Ms. Marvel tem potencial para ser o melhor live-action do Lanterna Verde da história.

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