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Crítica | ‘Gavião Arqueiro’ tenta humanizar o Clint do MCU, mas não é ele quem brilha (eps. 1-2)

Eu gosto muito do Gavião Arqueiro. Como muitos leitores modernos de HQs, eu gosto dele muito por conta da repaginação que o personagem sofreu na premiada e já clássica fase de Matt Fraction e David Aja na revista solo do personagem, em 2012. É um baita gibi, e todo mundo tinha que ler. Ponto.

Por outro lado… eu não acho que o Gavião Arqueiro do cinema é o Vingador favorito de ninguém. Alguém, em algum lugar, está levantando o dedinho e dizendo “Sim, eu aqui, eu amo o Gavião Arqueiro do Jeremy Renner!” só pra me contrariar, mas… vamos ser sinceros, com o Tony Stark do Robert Downey Jr. ou o Steve Rogers do Chris Evans, fica um pouco difícil de colocar o Clint Barton do Jeremy Renner em qualquer “top 5” (ou “top 10”). Entre os Vingadores sem filme próprio, foram anos do público pedindo um filme da Viúva-Negra, não do Gavião, por exemplo.

Mesmo assim, a série Gavião Arqueiro da Disney+, que estreou hoje com dois episódios, me interessava bastante. OK, eu assisti o filme do Guerra Civil, eu sei o que a Marvel Studios faz quando “adapta” arcos específicos dos quadrinhos, eu sabia que não seria uma adaptação fiel da fase Fraction/Aja como os pôsteres e trailers quiseram fazer parecer (Marvel, pague o Aja!). Até porque, os dois Clint Bartons são personagens fundamentalmente diferentes, não teria como transpor essa história das HQs para o momento da vida do personagem dos cinemas. Mas a série me interessava principalmente para saber o quê, das HQs, estaria lá, e para que o seriado “serviria” (porque, a essa altura, é isso que pensamos quando vemos mais um “conteúdo” Marvel).

(Custa aumentar o brilho dos filmes, Marvel?)

Das HQs, o que “sobrou” é a intenção de humanizar tanto o Gavião quanto o subgênero das histórias de super-heróis. Não que este último não tenha sido feito quase à exaustão, a essa altura, nos cinemas e seriados (Eternos é um filme sobre como deuses “também são seres humanos”, por exemplo), mas o personagem do MCU realmente precisava de uma repaginada. E a ideia aqui é fazer com que Gavião Arqueiro seja um filme de Natal, e usar o velho clichê do “pai distante que nunca está em casa no Natal” para mostrar Clint Barton como um homem de família em conflito. Se nos quadrinhos ele é um cara normal, no seriado ele quer ser um cara normal, mas sente um pouco da pressão de ser um Vingador, junto da culpa pelo seu período como Ronin. É um ponto de partida tão bom quanto qualquer outro, dadas as circunstâncias do personagem na continuidade do MCU.

Mas, mais do que isso, a jogada da série é usar a temática do Natal para “amolecer”, “soltar” o Clint Barton dos cinemas, torná-lo mais simpático ao público, de certa forma. O seriado se utiliza do fato de o personagem nunca ter sido o centro de nada e transforma isso em um discurso (da boca da Kate Bishop, estranhamente) sobre como ele “é fechado demais”. Como vimos pouco dele fora das tramas específicas dos filmes, é difícil afirmar se essa é mesmo a personalidade dele — e o que vimos meio que trabalha contra essa ideia: no caso, aquela ótima cena de Era de Ultron na casa dele no campo, com a família.

Não me parece que esse aspecto do personagem fosse um problema a ser resolvido, sinceramente — mas isso não quer dizer que não acabe por formar um arco interessante, com seus bons momentos. A cena do LARP (apesar do subtexto de “o nerd é um povo meio bobo” que as produções hollywoodianas não conseguem evitar, mesmo no seriado solo do personagem B de gibi de herói) talvez tenha sido o ponto alto desses dois episódios (ok, junto do musical), um bom momento de comédia que não é baseado em diálogos sarcásticos, e sim em humor físico e boa edição. Funciona como gag e funciona dentro do arco do Clint. Mesmo que o arco, em si, não seja lá tão interessante assim. Se o personagem do Jeremy Renner nunca teve muito carisma, o seriado vai tentar criar esse carisma na marra.

Hailee Steinfeld, a segunda melhor coisa da série (a primeira é o cachorro).

Por outro lado, a série não precisa se esforçar muito para trabalhar o carisma de sua nova personagem, Kate Bishop, essa, sim, o grande destaque dessa estreia. Gavião Arqueiro serve de preparação para o futuro da megafranquia, apresentando a personagem que deve levar o legado do nome Gavião Arqueiro pra frente nos cinemas. Hailee Steinfeld já cria uma boa personagem desde sua primeira cena e, apesar da muleta de ela ser “fã do Gavião Arqueiro” (achamos uma!), a força de sua atuação e seus conflitos familiares são bons o suficiente pra carregar a trama até aqui.

Quanto à trama… é suficientemente boa para sustentar os seis episódios da série, suponho. É bem amarrada, de forma a envolver os dois “Gaviões” de forma razoavelmente orgânica, ligando o agora padrasto de Kate, Jack Duquesne (o Espadachim das HQs) à Gangue do Agasalho (outro ponto alto do filme, sempre que eles conversam é engraçadíssimo) através do Ronin.

Mas é aí que entra outra das minhas rusgas com as tramas do MCU atualmente. Os filmes, finalmente, chegaram ao estado de hiper-auto-referenciação das HQs. É uma história que se estabelece em relação ao resto da franquia (ela já abre mostrando cenas de Vingadores), o que, para o Gavião, até faz sentido, já que o próprio personagem sempre foi apenas elenco de apoio. Mas também reflete as tendências das novas obras da Marvel Studios. São histórias herméticas: como quase tudo no Marvel Cinematic Universe a essa altura, são exercícios de manutenção de continuidade, caixinhas num checklist pro fã dar um “visto” e completar as lacunas da meta-trama. Neste caso, tudo volta para o Ronin (pelo menos nesses dois primeiros episódios), como um ponto de referência para tudo que define o Gavião Arqueiro e sua trajetória — talvez porque o personagem nunca fez nada de tão relevante até agora, tirando o que não vimos.

Se isso te interessa, a série funciona. Se isso não te interessa… ainda é uma trama eficiente, com uma ótima personagem carregando a experiência através de uma dinâmica de mentor-aluno que é até simpática. E tem o cachorro. E os russos de agasalho. Não é ruim, longe disso. E, se resistir à tentação de virar uma história de salvar-o-mundo com batalha de efeitos especiais no final, vai ganhar muitos pontos.

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