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Crítica | Eco é mais uma personagem a eclipsar o Gavião Arqueiro em ‘Gavião Arqueiro’ (ep.3)

Mais uma vez, Disney™’s Marvel™’s Gavião Arqueiro™ é usada para preparar terreno para futuras propriedades intelectuais e licenças da Disney — no caso, a Eco, que estreia muito bem neste terceiro episódio da série do Jeremy Renner mas que já tinha série própria confirmada antes de a vermos em ação aqui.

Gavião Arqueiro, até aqui, é uma série divertida de se assistir (este episódio, pelo menos na minha experiência, passou voando), mas também é muito esquisita, quando se para pra pensar em sua concepção. Porque o que não é a base dessa série se não uma admissão do quanto o Gavião do MCU nunca conseguiu ser um personagem interessante o bastante?

A começar, como já comentei antes, pela ideia de fazer com que o problema que Clint Barton precisa solucionar seja o quanto ele precisa se abrir, ser mais simpático, inclusive trabalhar o seu “branding”, pois o público nunca se identificou com ele (dentro do universo dos filmes, mas, né, fora também). É aquele bom e velho “lampshading”, ou seja, “jogar uma luz” sobre algo errado ou ruim de propósito, para evidenciar que o roteiro sabe que aquilo não é legal. E este terceiro episódio em específico foi cheio disso — teve até a Marvel Studios, mais uma vez, tirando sarro da Marvel Comics e do antigo uniforme do Gavião nos quadrinhos (porque deus me livre o seriado de gibi admitir que é um seriado de gibi). Mas a série, como um todo, de certa forma, é isso. É mostrar que eles sabem que dar um seriado inteiro para esse Gavião Arqueiro não tem lá muita justificativa, no fim das contas, e fazer disso o conflito central da trama.

Mas se não vale a pena contar a história de Clint Barton, então para que “serve” esta série? Ora, para preparar outros personagens que protagonizarão outros conteúdos exclusivos Disney™. Os dois primeiros episódios foram a introdução da (ótima) Kate Bishop de Hailee Steinfeld — neste terceiro, a clara protagonista é Maya Lopez, a Eco, vivida por Alaqua Cox.

O episódio abre com a sua história (assim como o primeiro abre com a história de Kate Bishop), mostrando como a menina, que nasceu surda, teve que superar um mundo que não foi feito para ela (como na ótima cena em que ela está na escola e consegue ler lábios, mas a professora constantemente fala de costas para a sala, o que é supercomum mas obviamente não leva em consideração as necessidades especiais dessa aluna), e, mais tarde, superar a morte de seu pai nas mãos do Ronin — mais uma vez, a série liga tudo ao passado sombrio e secreto de Clint Barton, a coisa mais legal que o personagem já fez no MCU.

A personagem, até o momento, tem presença e imponência, e também é ponte para um uso interessante da temática da série. Se Clint Barton precisa “se abrir”, usar a possível identificação dele com Eco, por conta de seus problemas de audição compartilhados, é um caminho tão interessante quanto qualquer outro. Claro, eles não têm os mesmos problemas, e, por conseguinte, não tiveram a mesma vivência, e nisso a série faz um bom trabalho. Recentemente, recebi um e-mail sobre meu podcast de Eternos sobre um erro de nomenclatura que cometi ao falar da personagem Makkari, e foi curioso ver a série me reensinando a falar do jeito certo: Eco é surda, Gavião Arqueiro é deficiente auditivo. E, se tem algo que deve se admitir, é que essa diferença de vivência é algo bem utilizado pela série, até para trabalhar o tema da comunicação, porque Clint, mesmo com um problema próximo do da Eco, ainda escolhe (como sempre, até aqui) a distância. O que, claro, tem a ver com sua culpa pelos atos do Ronin, mas ainda serve como analogia a essas questões de deficiência e privilégio.

Mas, claro, estamos falando de Marvel em live-action, então o que interessa pra todo mundo não é o que está na nossa frente, mas o que pode vir a seguir. Existe uma cena neste terceiro episódio em que alguém, uma mão estranha, aperta as bochechas da pequena Eco em sua aula de caratê. O que sabemos até o momento é que 1) o pai da Eco é morto pelo Ronin; 2) existe alguém acima da Eco na gangue e 3) nos quadrinhos, a Eco é filha adotiva do Rei do Crime. Logo, é claro que os fãs vão especular o Rei do Crime de Vincent D’Onofrio retornando das cinzas da Netflix para o universo do MCU. E… olha, eu ia amar, o Rei do Crime é a melhor parte de Demolidor, mas… é bom nós nos acostumarmos com a ideia de que esse tal líder da gangue é o Espadachim, mesmo, viu.

O episódio 3 foi divertido, contou com uma cena de perseguição muito bem coreografada (apesar de as constantes mudanças de fotografia deixarem a cena esteticamente esquisita), e ainda conta com a boa dinâmica entre Hailee Steinfeld e Jeremy Renner. Não exatamente avançou a trama da série, mas não importou. Funciona do ponto de vista do entretenimento, e funciona principalmente para os planos da megacorporação de mídia detentora dos bonequinhos.

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