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Afinal, o que Anéis de Poder vai adaptar da mitologia de O Senhor dos Anéis?

Recentemente, a ambiciosa série da Prime Video que se passa no mundo de O Senhor dos Anéis teve uma série de fotos e seu primeiro trailer revelado. Desde então, a discussão ao redor de Os Anéis de Poder tem sido muito acalorada, principalmente por conta do que os fãs consideram liberdades indevidas com o material original. Mas, afinal, qual é esse material original que servirá de base para o seriado, e até que ponto essas liberdades são realmente “liberdades” da produção?

Antes de mais nada, um pouco de background

As obras de J.R.R. Tolkien nesse mundo da Terra-Média (ou melhor, Arda — Terra-Média é um continente, Arda é o planeta… e, como veremos aqui, o seriado não deve se passar apenas nesse continente) contam com uma rica história contada em detalhes pelo autor em diversos livros diferentes. Essa história é, no geral, dividida em várias eras:

Antes do surgimento dos homens, houve o grande mito de criação do mundo através da Canção dos Ainur — literalmente, os deuses tocando instrumentos e cantando e fazendo tudo existir. Um desses “deuses” é Melkor, ou Morgoth, e ele é bastante importante, porque é o maior vilão da história desse mundo e o chefe do Sauron. Depois disso, existe a Era das Lâmpadas: antes da criação do Sol, o mundo era iluminado por duas lâmpadas no alto de torres enormes. Essa Era acaba quando Melkor derruba as torres. Depois, existe a Era das Árvores, mais uma vez, duas árvores cuja luz ilumina o mundo antes do Sol. Mais uma vez, a Era acaba quando Melkor (e a aranha Ungoliant) derrubam as árvores, mas um pouco de sua luz é preservada e, com isso, são criados o Sol e a Lua. E surgem, assim, as Eras do Sol.

A primeira imagem divulgada da série, com uma das duas árvores iluminando o mundo.

A Primeira Era do Sol começa com o surgimento dos Homens e termina com uma grande batalha na qual Morgoth é definitivamente vencido. A Segunda Era é um longo período de tempo que cobre a ascensão de Númenor (um reino dos homens em uma ilha fora da Terra-Média) e também de Sauron. É aqui que Sauron cria os Anéis de Poder e o Um Anel, ou seja, é todo o background de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. A Segunda Era termina na lendária última aliança entre elfos e homens, que é a cena de abertura da trilogia de Peter Jackson. Terceira Era é a que conhecemos nos livros e filmes mais importantes — é nela que ocorre o retorno e derrota de Sauron, a partida dos elfos e o início da Era dos Homens. Depois disso, existe a Quarta Era, mas dela só sabemos o destino de alguns personagens de O Senhor dos Anéis, e Tolkien não escreveu mais nada.

O que os produtores de Os Anéis de Poder podem adaptar?

Alguns dias atrás, os produtores do seriado deram uma entrevista à Vanity Fair explicando justamente quais materiais eles têm acesso para usar na série da Amazon, e a resposta deixou alguns fãs bastante preocupados:

Nós temos apenas os direitos de A Sociedade do Anel, As Duas Torres, O Retorno do Rei, os apêndices e O Hobbit. E é isso. Não temos os direitos de O Silmarillion, Contos Inacabados, A História da Terra-Média nem nenhum dos outros livros.

Mas isso também não é informação nova. Em uma reportagem de 2019 para o The Guardian, um estudioso das obras de Tolkien já havia esclarecido a questão, inclusive dizendo que há uma exigência bastante específica da família Tolkien e dos proprietários dos direitos das obras:

O estudioso de Tolkien Tom Shippey, que está supervisionando o desenvolvimento da série, disse ao site alemão Deutsche Tolkien que os proprietários se recusaram a permitir que o seriado se passasse em qualquer período além da Segunda Era da Terra-Média. Isso significa que a adaptação da Amazon não vai cruzar com os eventos da Terceira Era, que foram dramatizados na premiada trilogia de Peter Jackson na qual o hobbit Frodo Bolseiro viaja para destruir o Um Anel.

Ou seja, a série não pode recontar o que já vimos nos filmes, e poderá mostrar apenas o que acontece na Segunda Era dentro do que está explicado nos livros A Sociedade do Anel, As Duas Torres, O Retorno do Rei e O Hobbit.

A cidade élfica de Lindon, criada no início da Segunda Era, como será vista no seriado da Amazon.

O que existe da Segunda Era nos livros a que a Amazon tem acesso?

Não muito.

Por outro lado, não existe muito da Segunda Era em lugar nenhum.

O Silmarillion, por exemplo, que é o livro de Tolkien que conta toda a história de seu mundo de fantasia, é quase todo dedicado às primeiras eras explicadas acima: as lâmpadas, as árvores e a Primeira Era do Sol. A seção do livro chamada Akallabêth é a parte dedicada à Segunda Era, mas ela é bastante específica: é a história da queda de Númenor. E é bem curtinha, cerca de 30 páginas. Depois disso, existe a seção Dos Anéis de Poder e a Terceira Era, uma passagem bem rápida resumindo a criação dos Anéis e os eventos que conhecemos da trilogia O Senhor dos Anéis. Esse trecho também é bastante reduzido, cerca de 20 páginas dependendo da edição que você tem em mãos. Ou seja, dentro dos materiais que eles não têm acesso, para contar o que eles podem contar, já não havia muito o que usar.

E no que eles têm acesso?

…a situação é um pouco pior. Porque, nos apêndices, a Segunda Era está relegada apenas ao Apêndice B, e não passa de uma lista de datas e acontecimentos. “Ano 1: Fundação dos Portos Cinzentos e de Lindon; Ano 32: Os Edain chegam a Númenor”, e por aí vai. O apêndice, inclusive, abre com uma explicação do autor, dizendo que “estes foram os anos sombrios para os Homens da Terra-média, mas os anos da glória de Númenor. Dos eventos da Terra-média, os registros são poucos e breves, e suas datas são frequentemente incertas”, ou seja, canonicamente, é um período daquele mundo (pelo menos para a Terra-média, já que Númenor está registrada no Akallabêth) que não foi muito bem documentado.

A Segunda Era é um período com poucas informações para se trabalhar e poucos personagens realmente desenvolvidos, mas isso também significa mais espaço para criar. A reportagem do The Guardian diz que, com isso, o seriado tem certa liberdade, desde que não contradiga nada que esteja escrito em outras obras de Tolkien.

Shippey disse que a Amazon “tem uma relativa carta branca” para adicionar detalhes, já que Tolkien não explanou cada detalhe da Segunda Era nos seus apêndices e nos Contos Inacabados, uma coleção de histórias publicada postumamente em 1980. Mas Shippey chamou isso de “um campo minado — é preciso andar com muito cuidado”, dizendo que “a propriedade Tolkien insiste que o panorama geral da Segunda Era não seja alterado. Sauron invade Eriador, é forçado a se retirar por uma expedição numenoriana, retorna a Númenor. Lá, ele corrompe os numenorianos e os seduz a quebrar o banimento dos Valar. Tudo isso, o curso da história, precisa ser mantido com exatidão.”

Ou seja, se a preocupação dos fãs é a fidelidade ao material fonte, a família Tolkien está lá para limitar mudanças que alterem o cânone das obras — o que significa que, mesmo que a produção não possa adaptar o texto do Silmarillion, ela também não pode fazer nada que o altere — mas isso também quer dizer que essas exigências necessariamente obrigam o seriado a preencher as lacunas deixadas pelo autor.

E é daí que vêm os personagens novos. O especialista em O Senhor dos Anéis Cory Olsen disse ao IGN que os Elfos Silvestres, para dar um exemplo, são um povo que conta com apenas dois personagens com nome na Segunda Era: Thranduil (pai do Legolas) e seu pai. É daí que vem a escolha de criar Arondir, o elfo vivido pelo ator Ismael Cruz Córdova. O especialista também diz que Tolkien nunca se preocupou demais em descrever a aparência física dos personagens, exemplificando com um “causo” de um evento que ocorreu com o autor ainda vivo, em que duas fãs perguntaram a ele se Aragorn tinha barba, já que nos livros nunca foi dito se ele tinha ou não (no caso, não se preocupem, sim, ele tem barba canonicamente). Ainda sobre a aparência dos personagens, esses mesmos elfos, são descritos como um grupo com “cabelos escuros”, como diz o tradutor dos livros no Brasil Reinaldo José Lopes, e mesmo assim toda sua família foi retratada com longos cabelos loiros no cinema — não só liberdades desse tipo já foram tomadas antes, como um ator negro para alguém desse grupo de personagens não contradiz nada do que foi escrito nos livros de Tolkien especificamente.

Além disso, mesmo que não haja maiores explicações do que acontece nessa época nos apêndices, a própria narrativa dos livros da trilogia contém flashbacks e explicações da boca dos personagens contando o que acontece na Segunda Era: como já foi dito anteriormente, existe uma versão da aliança entre elfos e homens dentro de O Senhor dos Anéis, por exemplo. Muitas das partes que importam já estão lá.

O ator Ismael Cruz Córdova no papel de Arondir, personagem original criado para a série.

Mas então, pra que fazer esse seriado?

Ignorando o óbvio (1- ganhar dinheiro, 2- Jeff Bezos é fã dos livros, é o homem mais rico do mundo e pode fazer literalmente o que quiser), pra que contar essa história, se existem tantas limitações assim?

Primeiramente, já temos uma versão “definitiva” da Guerra do Anel nos filmes de Peter Jackson (e também tem O Hobbit, que não são filmes tão bons, mas completam a narrativa com o mesmo elenco e tudo mais). Refazer esse trecho, além de proibido pela família do autor, já seria algo um tanto polêmico. Imagine o ator que tivesse o trabalho ingrato de substituir Ian McKellen como Galdalf, por exemplo.

Não existindo a escolha de contar as histórias mais icônicas desse mundo, pode-se argumentar que a próxima melhor opção seria contar o que a precede. E a Segunda Era é, de fato, o preâmbulo de tudo que acontece em O Senhor dos Anéis. É a “história de origem” de uma lenda. A história da ascensão de Sauron e da criação dos anéis é muito mais relacionável e próxima do que o grande público conhece do que, por exemplo, a disputa pelas Silmarils. É efetivamente o prólogo de tudo que conhecemos e amamos. E ainda dá liberdade para surpreender quem já conhece a história original (apesar de os fãs mais ferrenhos, em geral, quererem o exato oposto da surpresa…).

Além disso, se a ideia fosse adaptar a Primeira Era, apesar de muitos contos épicos que acontecem no período (como a incrível luta de Fëanor sozinho contra um exército de balrogs), os protagonistas dessa era são um tanto distantes dos personagens que já conhecemos. Adaptando a Segunda, podemos ver a juventude de personagens que o público já conhece e se interessa, como GaladrielElrond, que aparecem com grande destaque no trailer e nas fotos de divulgação.

O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder pode, sim, claro, ser um seriado “ruim”. Mas, ao contrário do que muitos podem tentar argumentar, ele não é uma tentativa de “sabotar” o legado de J.R.R. Tolkien — a família do autor nunca permitiria, afinal. É até, de certa forma, um experimento curioso: como o seriado vai conseguir ser, ao mesmo tempo, criativo fiel aos livros? O desafio é interessante.

O resultado só saberemos quando o seriado estrear, em 2 de setembro de 2022.

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