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Crítica | Live A Live, um remake de respeito

Uma das coisas que mais gosto em JRPGs são suas mecânicas únicas e elementos diferenciados, mas às vezes tenho a impressão de que os RPGs atuais estão seguindo a mesma receita de bolo e entregando experiências muito parecidas. Sinto falta da inovação e criatividade que os desenvolvedores precisavam ter nos 16 e 32-bit por conta da limitação técnica (mas não sinto falta da limitação em si).

É então que somos surpreendidos com um remake de LIVE A LIVE lançado para Nintendo Switch, um jogo originalmente lançado para Super Famicom mas que nunca saiu do Japão. LIVE A LIVE faz parte de uma extensa lista de títulos dos anos 90 que nunca ganharam uma localização oficial para o Ocidente. Para você entender bem o que eu estou tentando dizer, vamos do começo.

Criação do jogo

A primeira versão de LIVE A LIVE foi lançada para Super Famicom em 1994 e como eu disse antes, nunca chegou ao Ocidente, sendo esse remake de 2022 a única maneira de jogá-lo de forma oficial.

Takashi Tokita é o diretor original do jogo e supervisiona a nova versão.

LIVE A LIVE foi a primeira vez de Takashi Tokita como diretor de um jogo da Square Enix (na época, Square Soft). Tokita já havia trabalhado como diretor de batalha e roteirista de Final Fantasy IV e, mais tarde, foi o diretor responsável por títulos importantes dentro da empresa como Parasite Eve, Final Fantasy: The 4 Heroes of Light e Chrono Trigger.

Yoko Shimomura foi a responsável por toda trilha sonora do jogo.

Takashi Tokita não foi o único grande nome a trabalhar em LIVE A LIVE, tivemos a participação da lendária compositora Yoko Shimomura fazendo seu primeiro grande trabalho dentro da Square. Acho muito difícil você não conhece-la, mas se esse for o caso, Yoko é responsável pela trilha sonora de Kingdom Hearts, bem como Final Fantasy XV, Super Mario RPG e, é claro, a icônica trilha sonora de Street Fighter II da Capcom.

Apesar do seu status de clássico cult, LIVE A LIVE infelizmente foi um fracasso comercial, vendendo apenas duzentas e setenta mil cópias em toda sua vida, mesmo para os padrões da década de 90 foi considerado um fracasso pela Square. O interessante é que com o passar dos anos ele foi ganhando fãs que conseguiam jogá-lo por conta de almas caridosas que traduziam, de forma não oficial, para o Ocidente — chegou até a ser chamado de “Final Fantasy VI killer” (matador do Final Fantasy VI) por alguns fãs do gênero.

História experimental

Assim como em Octopath Traveler, você pode jogar as histórias na ordem que desejar, mas tudo se encaixa no cenário final. LIVE A LIVE foi o primeiro RPG eletrônico a utilizar esse tipo de narrativa, sendo precursor de RPGs com enredos entrelaçados que vieram pós-Kigdom Hearts: Birth by Sleepy e o próprio Octopath Traveler.

Agora onde LIVE A LIVE realmente se difere de todos esses jogos é na variação de cada cenário. O jogo usa um sistema de combate por turno, mas cada personagem tem seu toque especial: uma mecânica única de combate que faz com você sintir que está jogando jogos diferentes. Por exemplo, o cenário do Japão feudal é baseado em furtividade, enquanto o cenário do Futuro Próximo permite ler a mente das pessoas e obter informações para progredir na história.

Outra coisa que torna cada personagem de LIVE A LIVE interessante é o fato de cada um ser desenhado por diferentes artistas de mangá. Isso faz com que cada personagem e cenário pareçam únicos, já que cada um atende a um estilo visual diferente. Nomes de mangakás famosos como Gosho Aoyama (Detetive Conan) e Ryōji Minagawa (Spriggan) são listados como colaboradores do projeto.

Infelizmente, por conta da tecnologia HD2D (que é ótima), o remake parece ter um estilo gráfico mais unificado, mas você ainda consegue perceber o diferencial dos artistas nos vários designs espalhados pelo jogo.

Mas como está o remake?

Fãs do jogo original ficaram com receio desse remake, tendo em vista o trabalho preguiçoso e dispensável que a Square Enix vem fazendo em seus remakes e remasters. Trabalhos recentes como Chrono Cross e Final Fantasy VIII deixou muita gente com o pé atrás com LIVE A LIVE. Mas fique tranquilo que o jogo foi supervisionado por Takashi Tokita, diretor do original e, felizmente, entrega tudo o que se esperava.

Chrono Cross Remaster foi massacrado pela critica.

Falando especificamente do jogo, apesar de ser o remake de um título de quase 30 anos atrás, LIVE A LIVE conseguiu me passar um ar de novidade que não experimentava há tempos com um RPG, agora utilizando o motor gráfico HD2D originário de Octopath Traveler — também utilizado em Triangle Strategy, no remake de Dragon Quest 3 e Eiyuden Chronicle: Hundread Heroes, considerado o sucessor espiritual de Suikoden (Konami). Muito dessa sensação de novidade se deu por, em um único jogo, eu consegui experimentar diferentes mecânicas vários personagens.

Octopath Traveler foi o primeiro jogo a usar o motor gráfico HD2D.

Em LIVE A LIVE você escolhe começar a aventura com qualquer um dos sete personagens principais, de um homem das cavernas até um robô de manutenção futurista, cada um com sua própria história se passando em uma época diferente da humanidade. Após completar os sete cenários, um oitavo capítulo ambientado na Idade Média é desbloqueado. Nele, por sua vez, é desbloqueado o capítulo final na qual são unidas as narrativas. Se você jogou Octopath Traveler, sabe como é. Vai estar em casa.

Você pode jogar na ordem que bem desejar.

Como dito antes, acompanhamos a vida de sete personagens distintos em épocas diferentes, que são: o homem das cavernas Pogo (pré-História), o mestre em artes marciais Shifu (China Imperial), o pistoleiro fora da lei Sundown Kid (Velho Oeste), o ninja Oboromaru (Japão Feudal), o lutador de rua Masaru Takahara (Tempos Atuais), o órfão com poderes psiônicos Akira Tadokoro (Futuro Próximo), e o robô de carga Cube (Futuro Distante).

O jogo também recebeu dublagem em grande parte de seus diálogos, o que deixca com uma carinha mais atual. E a trilha sonora foi rearranjada e supervisionada, novamente, pela competente Yoko Shimomura.

Considerações finais

Uma última curiosidade. Se você é fã de RPG, certamente deve conhecer Undertale, jogo indie que fez muito sucesso uns anos atrás (e excelente por sinal). Quando o remake de LIVE A LIVE foi anunciado, o criador de Undertale, Toby Fox, compartilhou que a música do jogo influenciou fortemente a trilha sonora de seu jogo, especialmente na composição da icônica música Megalovânia.

Este é outro exemplo perfeito da influência de LIVE A LIVE nos JRPGs, que infelizmente muitas pessoas nem fazem ideia disso. LIVE A LIVE é definitivamente um JRPG que precisa ser jogado por todo mundo que é fã do gênero.

A música de Undertale foi fortemente influenciada pela trilha sonora de LIVE A LIVE.

Com certeza este é um acerto da Square Enix e fico na torcida para que a empresa consiga tratar com tanto carinho e competência os próximos remakes que forem (e planejam) lançar.

■ Jogo: Live A Live  ■ Publicação: Nintendo  ■ Desenvolvedora: Square Enix
■ Plataformas: Nintendo Switch   ■ Lançamento: 22/07/2022

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