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Crítica | O Peso do Talento: Nicolas Cage é o melhor Nicolas Cage que temos

Quando eu li a notícia de que estava em produção um “filme sobre o Nicolas Cage estrelando Nicolas Cage”, não precisou de muito para fisgar minha atenção. Quando vi que o título (original) seria O Peso Insuportável de um Enorme Talento (The Unbearable Weight of Massive Talent, adaptado para cá de modo tristemente mais discreto), eu já sabia que ia adorar esse negócio. É talvez por isso que eu tenha saído da sessão com uma sensação de vazio. Eu gostei do filme, é uma boa comédia com momentos de brilhantismo… mas que parece nunca ir até o limite do que poderia ser. O que é uma pena.

Na trama, Nicolas Cage é Nicolas Cage. Sim, ele mesmo. O ator está em crise, tentando desesperadamente conseguir papéis de destaque enquanto justifica para si mesmo que ser ator é só um trabalho, e a série de filmes questionáveis que ele protagonizou pagaram as contas, e está tudo bem. Ele desconta essa crise na sua relação com a filha, que sente que o pai está tentando transformá-la numa cópia de seus próprios gostos para cinema como um legado de seu amor pela sétima arte. Depois de um típico incidente de “pai bêbado fazendo a filha passar vergonha no aniversário”, ele decide se aposentar, e aceitar um serviço de “presença VIP” no aniversário do ricaço espanhol Javi Gutierrez (Pedro Pascal) — porém, a CIA aparece e diz a Cage que Javi é, na verdade, um chefão do tráfico de drogas, e precisa que o ator agora seja um espião e ajude a Inteligência a resgatar a filha de um político importante que está na mansão do milionário.

Talvez o maior problema de O Peso do Talento seja que, em estrutura e estética, o filme é uma comédia hollywoodiana bem típica. Com uma premissa metalinguística como essa, e até mesmo com uma trama tão absurda, o que se esperaria do filme seria, no mínimo, algo nos moldes da direção da dupla Phil Lord/Chris Miller em Anjos da Lei — e, se déssemos sorte, até o tipo de farsa ou comédia de erros que os irmãos Coen costumam criar, como em Fargo ou Queime Depois de Ler. Poxa, o próprio Cage já esteve num filme como o que este poderia ser: Arizona Nunca Mais, também dos Coen. Mas o que recebemos foi talvez a melhor versão possível de uma comédia do Ben Stiller do começo dos anos 2000. É funcional, mas aquém do potencial do projeto.

Nesse sentido, o que sustenta a maior parte do filme é a ótima dupla que Cage forma com Pascal. A história da amizade dos dois é a espinha dorsal do filme, principalmente quando o roteiro deixa de ser uma comédia de constrangimento (que é praticamente todo o primeiro ato) para um trama bem mais leve e boba de dois homens de meia-idade descobrindo uma amizade sincera, mais uma vez através de seu amor compartilhado pelo cinema. Não consigo me decidir de qual dos dois gosto mais: são duas atuações igualmente engraçadas e adoráveis, e torço para ver os dois juntos mais vezes nas telas.

O filme tem lapsos, aqui e ali, do que poderia ser — e quando isso acontece, ele brilha. É curioso como esse filme é muito menos autorreferencial do que poderia ser. As referências à rica filmografia de Cage são estranhamente esparsas: o longa abre com a cena clássica do final de Con-Air, temos uma sala de “memorabilia” dos filmes dele que incluem as bolinhas verdes da bomba de A Rocha e uma hilária estátua de cera horrorosa de Cage em A Outra Face, assim como as pistolas de ouro que ele usa naquela produção, e que têm papel central na conclusão deste. Mas o destaque, claro, vai para as ótimas cenas em que Cage contracena com um deep fake dele mesmo, bem mais jovem, na época em que estrelou Coração Selvagem trinta anos atrás. Todas as vezes em que isso acontece são simplesmente maravilhosas, chegando num nível de absurdo que eu prefiro nem estragar para quem ainda não viu. Uma cena que, espero eu, fique marcada na história do cinema.

Por isso, é uma pena que o filme não faça mais disso. Por que  essa “persona” de Cage? Por que não conversas com outras fases de sua carreira, como, por exemplo, todo o período que é chave na trama do filme, em que ele fez uma série de filmes de qualidade duvidosa e todos se perguntavam por que ele aceitava esse tipo de projeto? Ou também com a fase “astro de filmes de ação”? Eu adoraria ver este Cage conversando com o Cage de Con-Air, por exemplo. É um filme metalinguístico que eu gostaria que fosse ainda mais meta, realmente mergulhasse na psique de seu protagonista, pois é lá que está o verdadeiro potencial.

De qualquer forma, é muito admirável e muito interessante o fato de que o roteiro realmente aborde esse lado de sua carreira; e igualmente admirável o quanto Nicolas Cage demonstra autoconsciência quanto ao caminho que sua carreira percorreu e a impressão geral do público quanto a ela. Claro, ele faz isso no momento certo, já que ele está passando por uma boa fase, com projetos respeitados e atuações aplaudidas como em MandyPig (que, infelizmente, ainda não assisti), então olhar para trás e dar risada de uma fase ruim é mais fácil do que seria olhar para o agora e ver para onde sua carreira está indo. Mesmo assim, há de se aplaudir a iniciativa. Além disso, fico me perguntando o que há de verdade na relação de Cage com a família, já que outro pilar da trama é o quanto sua crise artística afeta sua relação com a filha e a ex-esposa. É um nível de exposição consideravelmente arriscado para as duas, caso seja real (óbvio que as atrizes não são realmente a família verdadeira dele, mas você entendeu), então já é outra camada interessante de se avaliar.

O Peso do Talento talvez seja um filme esquisito para muitas pessoas, mas eu digo que gostaria que ele fosse mais. Mais estranho, mais meta, mais experimental. O que temos é uma boa comédia padrão, com alguns momentos memoráveis, e ótimas performances de Nicolas Cage e Pedro Pascal. O que já é muito legal! Só é um pouco abaixo do que poderia ser.

O Peso do Talento estreia amanhã, 12 de maio, nos cinemas.

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