Kate Netflix
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Crítica | Kate

Um filme de ação competente — mas não muito mais que isso

Kate, a produção original Netflix lançada pelo serviço de streaming com certo destaque na última sexta-feira (10), é o típico filme de ação para quem gosta de “filme de ação”, e não faz questão de exigir demais do gênero; mas, com tantos fatores a seu favor, é difícil não terminar o filme frustrado com o potencial não alcançado.

A trama é consideravelmente simples — o que não é exatamente um ponto negativo. O filme, dirigido por Cedric Nicolas-Troyan (O Caçador e a Rainha do Gelo) conta a história da personagem título vivida por Mary Elizabeth Winstead (Aves de Rapina, Scott Pilgrim Contra o Mundo), uma assassina profissional assombrada pela culpa depois de ter cumprido a ordem de matar um membro da yakuza em Osaka, uma morte testemunhada pela filha do alvo, Ani (a estreante Miku Patricia Martineau, de apenas 17 anos de idade). Kate decide deixar o ramo, mas antes que possa realizar seu desejo, é envenenada com plutônio (!!) e, agora, ela vai partir numa última missão de vingança ao lado da menina que ela traumatizou.

A trama mais direto-ao-ponto se reflete na estrutura do filme: depois da preparação para o filme “de verdade”, toda a parte que envolve a primeira missão, o tempo que passa depois disso, a tentativa de Kate de deixar seus dias de assassina para trás e o envenenamento, todo o resto do filme se passa em uma só noite, uma jornada alucinada pelas ruas de Tóquio para encontrar o culpado pelo envenenamento antes que ela morra. A corrida contra o tempo é uma escolha que ajuda muito no ritmo do filme — Kate pode ser muitas coisas, mas ao menos toma o cuidado de não ser entediante.

O longa também não chega a ser exatamente repetitivo, mas por muito pouco. Com exceção de uma curta perseguição de carro e de todo o trecho final, a maior parte das cenas consiste de tiroteios e lutas corpo-a-corpo muito parecidas, mas com um mínimo de variação; variação essa que, com frequência, se sustenta em um grande fator a favor da produção: a escolha de ambiente. Tóquio proporciona uma miríade de cenários com diferentes “sabores”, o que poderia criar, em mãos criativas, cenas belíssimas, diferentes e ousadas, imagens empolgantes e evocativas. Em vez disso, o diretor Cedric Nicolas-Troyan (que, curiosamente, tem mais experiência em efeitos visuais que em direção), enquadra seu filme, na maior parte do tempo, de modo muito básico, limitando-se a tirar proveito do estereotípico neon de Tóquio aqui e ali.

Algumas escolhas e momentos são inspirados, como certos movimentos de câmera que acompanham corpos girando no ar, ou uma ótima tomada, no terceiro ato do filme, no qual Kate, ao centro, parece “invocar” um exército de trás de si. Mas outros momentos chegam a ser frustrantes, como uma luta numa mansão típica japonesa, cheia de portas de correr e biombos — tudo branco e plano e igual, uma escolha que nem cria uma sensação de vastidão, nem de claustrofobia, é apenas um fundo branco sem graça (num certo momento, sangue é espirrado na porta branca… apenas uma vez, só um pouquinho… falta ousadia). Ou mesmo um confronto de espadas ao fim do filme, que escolhe ser curto (o que é bem legal e faz sentido), mas é enquadrado de modo tão chapado e distante que não conseguimos sentir o choque da ação repentina ou a emoção da conclusão.

Já as cenas de ação são ao menos competentes, num mínimo esperado. Muito se compara este filme à série John Wick, protagonizada por Keanu Reeves, mas acredito que esta produção se beneficiaria de aprender algumas lições com Atômica, um filme de ação esteticamente ousado, que tira o máximo de proveito de suas locações na Alemanha da Guerra Fria e da intensidade e brutalidade da protagonista vivida por Charlize Theron — ou até mesmo com a série Adrenalina, com Jason Statham (quer dizer… não precisa chegar ao mesmo nível de exagero e absurdo de Adrenalina… nada precisa chegar a tanto), que se utiliza de uma dinâmica parecida, com um protagonista correndo contra o tempo e usando estimulantes para conseguir seguir em frente em cenas de ação alucinadas. Em vez disso, Kate conta com lutas violentas que equilibram plasticidade e realismo, mas sempre sabotadas pela direção mediana. As lutas são boas, mas é como se elas nunca chegassem “lá”. Pelo menos, o hábito do cinema americano de empregar centenas de cortes por minuto durante cenas de luta não chega a ser um grande problema aqui. É algo.

Porém, se a direção não ajuda, algo que não decepciona (…em parte) é o elenco. Por um lado, a estreante (“Apresentando: Miku Patricia Martineau”, como diz o pôster internacional) Martineau faz um belo trabalho como a jovem Ani, que é, de certa forma, o centro da trama. A jovem atriz consegue retratar as flutuações de uma adolescente “rebelde” e frustrada, mas também profundamente traumatizada e solitária. Por outro, o veterano Woody Harrelson (no papal de Varryck, o tutor e chefe de Kate) recebeu um texto básico e não parece ter se esforçado para valorizá-lo. Harrelson parece estar no piloto automático sempre que aparece na tela, puxando todas as suas cenas para baixo.

Kate Netflix 2

Mas o destaque, obviamente, está na performance de Mary Elizabeth Winstead. Já estava evidente, em Aves de Rapina, que a atriz dava conta de ser uma estrela de ação. O que brilha mesmo é sua performance física além das lutas e tiroteios — Winstead retrata com intensidade visceral a deterioração física da personagem, envenenada com plutônio (!!!) no início da trama. Conforme o tempo passa, Kate vai tendo cada vez mais dificuldade de se locomover, de falar, de se manter de pé, e só é possível “comprar” o drama e a urgência desses momentos graças à brilhante atuação de Wistead. Isso, aliado a uma estrutura inteligente do roteiro nesse sentido, de ir revelando a personagem aos poucos (ao passo que a atuação de Winstead acompanha a escalada na complexidade de Kate), basicamente, o que sustenta o filme. Aliás, palmas para o sensacional trabalho de maquiagem, gradualmente “deformando” a personagem em frente aos nossos olhos.

Kate não vai revolucionar o gênero, e nem é exatamente essa a tentativa, aqui. Está longe de parecer um filme de ação genérico do tipo que o Steven Seagal cospe a cada 4 meses direto para vídeo, mas também não deve entrar para o rol dos grandes filmes de ação da história — mas nem tudo precisa ser histórico, icônico. É um filme de ação — mais um filme de ação — e um razoavelmente competente. E está tudo bem.

(P.S: sim, tem o Miyavi no filme, é só uma ceninha e… é até ok, vai.)

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