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Crítica | Ghostbusters: Mais Além

“Chame de destino, chame de sorte, chame de karma… eu acredito que tudo acontece por uma razão“, dizia o Peter Venkman de Bill Murray no primeiro Os Caça-Fantasmas, lançado em 1984 e cultuado até os dias de hoje como um dos filmes mais inventivos e divertidos de todos os tempos. E talvez a espera de 32 anos entre o segundo filme e Ghostbusters: Mais Além, este sim uma continuação direta, tenha tido de fato uma razão para acontecer: o diretor certo, a mentalidade certa e os exemplos certos de como reviver – com o perdão do trocadilho – uma franquia.

Negócio de família

Ghostbusters: Mais Além é um filme sobre família, feito por uma família. Fora das telas temos Jason Reitman, filho de Ivan Reitman, diretor dos dois longas originais, comandando a produção. Dentro delas, acompanhamos a história dos descendentes do dr. Egon Spengler, membro do time original de Caça-Fantasmas interpretado pelo saudoso Harold Ramis, morto em 2014.

Endividados até o pescoço e prestes a serem despejados, Callie (Carrie Coon) filha de Egon, e seus filhos Trevor (Finn Wolfhard) e Phoebe (Mckenna Grace), se mudam para o antigo casarão do lendário cientista numa pequena e pacata cidade do interior dos Estados Unidos. É quando a menina começa a perceber que há mais por trás da morte de seu avô do que um simples ataque cardíaco, o que a faz entrar numa aventura sobrenatural ao lado de seu amigo Podcast (Logan Kim) e seu professor, o Gary Grooberson (Paul Rudd), que acabam pegando carona na jornada da menina em busca da verdade sobre sua família e o mal que se esconde nas profundezas do local.

A maneira como Jason Reitman conduz a narrativa transforma esta em uma experiência autêntica de se assistir a um filme dos Caça-Fantasmas, algo que a versão de 2016 fracassou em alcançar. O primeiro filme nunca foi exatamente focado na ação, preferindo investir na química entre seus personagens e em diálogos bem escritos, algo que é repetido no novo filme. As rimas visuais e easter eggs de lei, obrigatórios neste tipo de produção, tem realmente um motivo de existirem, mas é a parte sonora que liga o passado e o presente. Quase todas as composições que Elmer Berstein escreveu para o longa original são reutilizadas aqui de forma bastante pontual, arrancando uma sensação gostosa de nostalgia. Mas nada disso se sustentaria sem seus protagonistas.

Finn Wolfhard, Mckenna Grace e Logan Kim são os novos heróis do universo de Ghostbusters

Aventura juvenil

Enquanto o primeiro filme mostrava homens de meia-idade caçando aparições fantasmagóricas para ganhar dinheiro, o atual tem na curiosidade juvenil seu ponto mais forte, mas até que a própria nostalgia. Pensem em algo como Os Goonies ou Stranger Things, mas com espectros e mochilas de próton ao invés de piratas e mundos invertidos.

Mckenna Grace conquista facilmente o público vivendo a genial porém problemática Phoebe, que assim como seu avô Egon, tem a mais absoluta paixão por todo tipo de ciência aleatória e uma falta de traquejo social que chega a ser encantadora. Pontos também, para Logan Kim, de longe o dono das melhores piadas do filme, sempre surgindo com um comentário sem filtro nos momentos mais inoportunos e narrações dramáticas tão fora de hora que é difícil não dar algumas risadas.

Quem não funciona tão bem assim é Finn Wolfhard, cujo personagem não tem muita importância além de dirigir o que sobrou do Ecto-1, icônico veículo dos Caça-Fantasmas. Suas tentativas de se aproximar de Lucky (Celeste O’Connor), que também não tem muito motivo para estar lá além de conhecer as pessoas certas na hora certa, não servem muito à trama e muito menos o tornam um personagem mais interessante.

Felizmente, esses erros e acertos são equilibrados e não chegam a incomodar em momento algum. A história, contada do ponto de vista de adolescentes com zero conhecimento de quem eram e o que faziam os Caça-Fantasmas, funciona quase que como uma alegoria ao novo público que o filme tem a intenção de alcançar, fazendo isso sem desrespeitar o que foi feito antes ou os fãs de longa data em momento algum. Aliás, falando neles…

Lucky (Celeste O’Connor), Trevor (Finn Wolfhard), Podcast (Logan Kim) e Phoebe (McKenna Grace) em ação: personagens dão uma sensação de frescor e novidade a uma franquia prestes a completar 40 anos

Legado preservado, homenagem merecida

Muita gente cresceu com Os Caça-Fantasmas, fossem os dois filmes originais ou o clássico desenho animado dos anos 80, cujos brinquedos foram uma verdadeira febre e mantiveram a franquia viva por muitos anos antes de cair no esquecimento. Jason Reitman parece saber disso, e fez com que Ghostbusters: Mais Além prestasse tributo à série e seus fãs mais velhos de uma maneira que vai muito além de referências soltas e frases de efeito clássicas. É claro, a caçada por referências é divertida, mas ao contrário do que se vê aos montes por aí, não é uma experiência vazia.

Tudo o que aparece na tela tem serventia para a narrativa. A coleção de esporos, fungos e bolor de Egon, por exemplo funciona tanto como um aceno aos fãs de ontem quanto para apresentar aos de hoje o quanto o personagem era alguém incomum. Já o medidor PKE, peça fundamental do arsenal da equipe, também não é só um brinquedo legal e nostálgico: é também uma evidência de que Egon, mesmo morto, está ali o tempo todo, ajudando a neta a terminar o que ele começou.

A presença de Egon, aliás, pode ser sentida durante todo o filme, desde a exata primeira cena até o desfecho tão espetacular quanto emocionante. Uma homenagem mais que merecida a Harold Ramis, que além de viver o personagem nos filmes anteriores, também escreveu os roteiros ao lado do também caça-fantasma Dan Aykroyd. Sem ele, nada disso sequer existiria, e a forma como o filme homenageia sua vida e obra é de levar qualquer marmanjo que teve a infância embalada pela franquia às lágrimas.

Ah, sim: Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson estão de volta à seus respectivos papeis de Peter Venkman, Ray Stantz e Winston Zeddemore. Mas eu não vou te contar como.

Phoebe (McKenna Grace) é muito mais que um mini-Egon, assim como o filme não é só mais uma tentativa de reviver uma franquia morta

Cruzando os raios

Apesar de todas as qualidades, Ghostbusters: Mais Além não é impassível de problemas. O equilíbrio entre terror e comédia, que foi o que tornou o primeiro filme em um clássico para começo de conversa, não é tão bem conduzido aqui. O clima tenso da nova aventura se sobressai aos momentos mais descontraídos, com as piadas estando lá meramente para dar uma contrabalanceada na seriedade e no ar meio opressivo de mistério. Sabem quando algo se leva mais a sério do que deveria e isso tira parte da graça? Então, é sobre isso.

Ainda assim, é um filme divertido para quem chegou agora, emocionante para quem sempre esteve lá e cumpre muito bem o que se propõe: ser ao mesmo tempo uma sequência digna do tamanho da cinessérie e uma carta de amor à ela e seus fãs. Com sorte, veremos novas equipes de heróis caçando aparições, espectros e demônios com suas mochilas de prótons muito em breve, como a segunda cena pós-créditos (sim, são duas!) dá a entender.

E aí, pra quem vocês vão ligar?

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