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Crítica | The Heike Story, episódio 6

Não tem jeito, The Heike Story parece seguir um padrão não muito saudável de intercalar episódios alucinadamente apressados com episódios focados e concisos. Se o episódio 5 foi daqueles que mal dá pra saber o que está acontecendo, este sexto capítulo é o episódio pra nos voltar a acreditar no potencial do projeto.

A única coisa consistente nesta série é que ela me força a fazer sempre os mesmos elogios e reclamações. Quando ele foca em um aspecto específico, trabalha suas ideias e conclui um arco num episódio, é um anime brilhante. Este episódio é um deles.

Neste episódio, a causa de todos os problemas (como sempre) é a gestão completamente baseada em rancor e impulsividade de Kiyomori e suas constantes consequências negativas para sua família e o povo em geral. Para fugir de possíveis rebeliões, Kiyomori moveu a capital do país de Kyoto para Fukuhara, e declarou que qualquer um que permanecesse na antiga capital seria um traidor. Com isso, o povo saiu às pressas carregando as tábuas das suas casas para a nova cidade costeira, que ninguém gosta. Uma decisão estúpida e egoísta que obviamente vai voltar para assombrá-lo.

O que meio que já está acontecendo, pois Kiyomori está tendo visões com fantasmas a essa altura, além de demonstrar certo arrependimento por suas ações. Não o suficiente para voltar atrás (senão, não seria o Kiyomori), mas mesmo assim… No fim, Kiyomori é um dos personagens mais interessantes do anime até o momento. É um homem que, basicamente, se ilude: ele realmente parece, num certo ponto do episódio, acreditar que tudo que ele fez foi pelo bem do país, que suas decisões resgataram a dignidade do governo etc. etc. O que faz sentido, se você pensar que ele não tem provas da própria incompetência, no fim das contas: tudo que ele fez lhe garantiu o poder que ele buscava, então ele “está certo”.

Mesmo assim, as decisões erradas de Kiyomori não param, pois é claro que essa mudança de capital não impediria que os Heike fossem atacados por outras facções em busca do mesmo poder que ele tomou para si. E é aí que chegamos à sua segunda decisão idiota: colocar Koremori como comandante de seus exércitos, baseado apenas no fato de que seu pai já tinha grandes feitos de guerra na mesma idade. O egoísmo e autocentrismo de Kiyomori é o grande fio condutor de The Heike Story: ele é incapaz de ver seus familiares como entidades individuais, todos são extensões de suas ambições. este sexto episódio abre com um longo trecho sobre a sensibilidade artística de cada um dos filhos do falecido Shigemori, só para chegarmos ao momento em que isso é apagado pelo patriarca que só pensa na glória da guerra, culminando na ótima cena na qual os exércitos “liderados” por Koremori fogem assustados com o barulho dos pássaros em revoada na madrugada — uma extensão do medo do seu comandante, claramente despreparado para o campo de batalha.

Este episódio forma um arco de personagem completo para Koremori, concluindo na ótima cena da praia, na qual Biwa o encontra enquanto ele “decide” que não vai mais dançar, vai apenas se tornar o guerreiro que seu avó quer que ele seja, efetivamente se apagando enquanto pessoa para se tornar “um Heike”. É uma cena tão triste quanto bela.

O que nos traz a, talvez, a essa altura, uma das coisas que menos funciona no anime, infelizmente: Biwa. Sempre esteve claro que a pequena Biwa era apenas uma testemunha da história, a personagem através da qual nós temos acesso a essa grande épico. Mas, por vezes, nem o papel de testemunha dela é exatamente bem escrito e incorporado ao roteiro. Além de seus poderes de ver o futuro serem esquecidos por muito tempo, sinto falta de um ponto de vista. O que temos é apenas uma presença estratégica para que vejamos certas cenas (como no final, com Koremori) — isso quando tem. Por boa parte deste episódio, ela esteve ausente e, infelizmente, não fez falta.

De qualquer forma, este foi um dos bons episódios do anime, mas não queria que a qualidade oscilasse tanto. Não sei como é para o “assistidor de anime” no Japão, sei que essa guerra é muito famosa, mas talvez não seja de conhecimento de todo mundo que assistiria o anime. O que fico pensando é que The Heike Story já tem uma dificuldade absurda de penetração para o nosso lado do planeta, porque, além da obra original e dos acontecimentos históricos originais não serem conhecidos por aqui, nossos gostos mais “populares” tendem a passar longe da estética deste anime — e de muito do que o Science SARU faz, inclusive. Se o otaku não tem relação com a obra e não deve gostar da arte, o que poderia salvar Heike Story seria um roteiro sólido… mas se metade da história é tão corrida a ponto de ficar ininteligível, passando da metade do anime, começo a chegar à triste conclusão de que um dos animes mais ambiciosos do ano parece estar fadado ao esquecimento.

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