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Crítica | The Heike Story, episódio 11 (Final): Beleza sem contexto é só um vazio

É difícil não se emocionar com os instantes finais desse último episódio de The Heike Story. Só a pura execução dessa cena final me arrepiou, me trouxe lágrimas aos olhos. Eu não entendo de filosofia budista, então, falando em termos bastante genéricos, esse final amarra os fios da trama da história num tema muito presente no anime: Morte. The Heike Story é, de certa forma, uma história sobre morte. Sobre aceitar a morte. Sobre causar morte. Sobre ver morte. Sobre decidir a própria morte.

O anime é contado do ponto de vista de Biwa, que começa com o poder de ver o futuro, e assim, ver muitas mortes das pessoas que ela gosta; e que, depois, ganha outro poder, o de ver os próprios mortos. Ela testemunhou diversas mortes ao longo do anime, seja de causas naturais, guerra, duelos e uma série de suicídios. Tokuko também. Tokuko teve de ver o próprio filho morrer, e depois aceitar que ela não pode morrer, porque não era seu destino.

Tudo isso, inclusive, ainda posto após a ótima batalha final, uma grande metáfora para a história dos Heike: um esforço em vão, cujo destino era não dar certo de qualquer forma. Até os ventos abandonaram os Heike.

Todo o discurso final é muito bonito, mas o que me pegou mesmo foi Biwa tocando o biwa de forma cada vez mais agressiva ao final. Existe tristeza, mas existe também raiva. É, do ponto de vista da execução, uma maneira forte, contundente, emocionante, de pontuar a narrativa.

A questão é… pontuar o quê? Eu não li o livro. Só o que sei, é através do blog Lost in Anime (que ficou muito mais ofendido com o anime do que eu) e lá, o autor do blog diz que todo o trecho final do livro foi pulado, e que é esse trecho que realmente amarra a filosofia budista da história. Ou seja, o belo discurso do final, como adaptação, já chega até nós descontextualizado.

Mas, como alguém que não leu a obra original, o que mais me incomoda no anime é que esse final, mesmo lindo, chega completamente alheio ao contexto da história que vimos até aqui. A história dos Heike é um conto sobre ganância e irresponsabilidade, de pessoas em posições de poder tomando decisões absurdas em nome de mais poder, afetando uma cadeia de pessoas, causando uma série de mortes desnecessárias, destruindo vidas em mais de um sentido. São chefes de estado afetando o povo, movendo — e matando — populações inteiras pelos caprichos de um patriarca egoísta.

E tudo isso foi esquecido para, em vez disso, pensarmos que Heike Story é um conto sobre a… inevitabilidade da morte? É até irônico ver Tokuko dizer, ao final, que ela conheceu “todo tipo de dor”, como se a mãe do imperador tivesse sofrido mais que o próprio povo — ou mesmo mais que o próprio filho, uma criança que estava alheia a tudo que estava acontecendo e, do ponto de vista dele, do nada, é jogado no mar com a avó (é a avó, né?) pra morrer.

A força das imagens, da direção, da lágrima que quase caiu dos meus olhos no corte final do último episódio de The Heike Story, no fim, não são suficientes para distrair do fato de que esse anime é, mesmo sem conhecer a obra original, claramente uma obra incompleta. O que está lá é, muitas vezes, lindo, tocante. Mas o que não está é gritante. Por vezes, o anime é basicamente ininteligível. E, sem muito do contexto que precisaríamos para entender o que está acontecendo, além dos momentos em que o roteiro simplesmente ignora o contexto que existe para discursar sobre filosofia, o que sobra é uma (belíssima) casca vazia, uma mensagem bonita e real sobre coisas que não estão lá.

É uma pena. Eu realmente acreditei, por um momento, estar vendo algo único. Bom… “único”, é. Só é decepcionante.

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