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Crítica | The Heike Story, episódio 1

Funimation lançou com exclusividade o episódio 1 da nova série da Science SARU

A próxima temporada de animes, a de “outono” (do hemisfério norte), só estreia em meados de outubro, mas o serviço de streaming Funimation já começou com os seus lançamentos — na verdade, ainda mais adiantado. The Heike Story, nova produção do estúdio Science SARU (a casa de Masaaki Yuasa e suas criações, como Devilman Crybaby) só estreia na televisão japonesa em 2022, mas por aqui, os assinantes da plataforma já podem assistir o primeiro episódio — e que primeiro episódio.

The Heike Story é baseado num épico japonês do século XIV, que conta a história das Guerras Genpei, um conflito do século XII entre os clãs Minamoto e Taira (sendo que “Heike” é uma das leituras dos kanjis que formam “Taira”), que resultou no primeiro Xogunato da história do Japão. O épico original não tem autor, mas já foi adaptado diversas vezes (inclusive por Eiji Yoshikawa, autor de Musashi); o anime é baseado no romance de 2016 Heike Monogatari por Hideo Furukawa. Nessa adaptação, o épico é contado pelo ponto de vista de Biwa, uma menina cega capaz de ver o futuro, e que conhece o herdeiro do clã Taira, e assim, prevê a queda da sua família na guerra.

A produção do Science SARU é assinada pela diretora Naoko Yamada, veterana de produções como K-On! e A Voz do Silêncio, em sua primeira produção fora do estúdio Kyoto Animation. E o que se vê no primeiro episódio é o forte trabalho da diretora na expressividade dos personagens, aliado ao brilhante e único design de personagens de Takashi Kojima, como apontado pelo Sakuga Blog, um dos principais animadores de ação de One Piece hoje, além de ter assinado o design dos personagens em Ride Your Wave, outra produção do Science SARU, esta assinada por Masaaki Yuasa.

Claro, o que mais vai chamar a atenção, para o bem e para o mal (para aqueles que preferem uma cara mais “padrão anime”) é o “estilo” da coisa toda. Como é de praxe, as produções do Science SARU tendem a escolhas estéticas menos ortodoxas, pelo menos se se considerar a média dos “animes de temporada”. Aqui, a paleta de cores é mais lavada, pastel, o uso de sombras é apenas pontual, medido, utilizado para enfatizar cenas que precisem dessa ênfase. Os enquadramentos são chapados, na maior parte do tempo frontais. E o design dos personagens é o que alguns chamariam de “feio”, se o que se espera é algo mais próximo de uma produção que o estúdio ufotable lançaria, por exemplo. Mas fica clara a inspiração em arte tradicional japonesa e a escolha por um ambiente leve, ressaltando a beleza e pureza da natureza e a limpeza da arquitetura e moda japonesas — principalmente com o objetivo de contrastar essa aparente calma e harmonia com os momentos de maior violência, e com as vindouras guerra e tragédia.

Mas o que faz a produção funcionar é a expressividade dos personagens. A personagem principal, Biwa (um nome que ela mesma deu para si, inspirada no instrumento que ela toca), é o destaque e a âncora da história: seus olhos de cores diferentes são constantemente o centro das tomadas, e experimentamos a narrativa através das duas mudanças emocionais — desde momentos mais leves, em que ela é apenas uma criança brincando, até os mais traumáticos, como perceber que seu pai foi assassinado por algo que ela mesma disse.

O resultado é uma produção exuberante, viva, com tomadas de pura beleza, como a cena de Biwa abaixo das flores de cerejeira ao vento, ou as reproduções de pinturas japonesas para contar cenas do passado, com destaque para a cena ao fim do primeiro episódio, com uma cantora narrando uma história dos guerreiros Heike ao som de um biwa, de forma intensa e dramática.

O primeiro episódio não entrega demais da trama per se, mas já prepara alguns de seus temas. A guerra que se avizinha não deu as caras neste ponto, mas já podemos ver a arrogância do cabeça do clã Taira, advinda de seu total domínio político conquistado graças ao nepotismo da família, que colocou seus membros em quase todos os ramos do governo.

O ponto (ou um ponto) principal da história até aqui parece ser a disparidade social daquele momento da história. Biwa vem de uma família muito pobre, e foi testemunha da repressão que o clã Taira, que sequer reconhece a humanidade daqueles que não fazem parte da sua linhagem, impõe a qualquer um que sequer ouse questioná-los — seu pai foi morto porque Biwa disse apenas “isso é muito cruel” enquanto os agentes repressores do clã arrastavam cidadãos pobres para fora de suas casas. E, por ironia do destino, agora ela convive com a família rica que matou seu pai, ao ser adotada por Taira no Shigemori, e que, de acordo com suas visões, sairá perdedora da guerra que está para acontecer.

As questões de classe em The Heike Story não se limitam apenas ao âmbito econômico: Biwa foi “criada como menino” pelo pai (“Meu pai sempre me vestiu como menino, então eu sou menino”), muito provavelmente para poupá-la das dificuldades advindas de ser mulher (e mulher pobre, num mundo dominado politicamente por figuras masculinas). Ao ser adotada pela família Taira, a irmã de Shigemori a “identifica” como menina, mas entende a “escolha”, dadas as adversidades da vida como uma mulher. Não é possível ainda saber se as questões de gênero serão aprofundadas no anime (muito menos se haverá qualquer discussão sobre transgênero, o que seria interessante, se tratado de maneira sensível), mas é mais uma camada na história, algo que enriquece o gestalt da produção.

A Funimation já adiantou que, embora The Heike Story só estreie na televisão japonesa em 2022, por aqui poderemos conferir a série completa semanalmente a partir de agora. Este primeiro episódio já nos adianta que este anime tem o potencial para ser um dos melhores animes do ano — além de consolidar o Science SARU como uma das maiores forças criativas da indústria da animação japonesa atualmente.

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