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Crítica | SAKUGAN, episódio 3

Eu gosto de sutileza. Eu gosto de metáforas e analogias e histórias que são uma narrativa inteira só pra fazer um ponto muito indireto lá no fim. Mas, de vez em quando, ir direto ao ponto também não é nada mal.

O episódio 3 de SAKUGAN se chama “BRAINS&HEARTS”, ou seja, “cérebros e corações”. Num certo momento, depois de mais uma briga familiar, Gagumber diz que todo marker tem que ouvir “a voz que está aqui”, apontando para o coração — no que Memempu responde que prefere ouvir “a voz que está aqui”, apontando para a cabeça. Acho que não precisa explicar mais que isso, né?

Mas o mais interessante neste episódio — e, veja bem, “interessante” não quer dizer que é bom ou que eu gosto — é que SAKUGAN meio que escolheu um lado, neste episódio. E o lado é claramente o de Gagumber. No choque de gerações central ao anime, aparentemente, o lado “certo” é o lado dos adultos. O que não deixa de ser uma decisão corajosa, mas um tanto estranha no anime sobre aventura e exploração.

Este episódio acompanha o começo da jornada da dupla pelo Labirinto, como sempre em meio a muitas discussões. As brigas aqui todas giram em torno das decisões de Memempu quanto à rota pelo Labirinto: enquanto ela confia em seus próprios cálculos, que traçam rotas quase em linha reta para baixo, atravessando camadas de rocha para chegar nos próximos níveis, Gagumber acredita que o melhor é seguir com cautela, por caminhos mais longos e seguros.

A questão é que, neste episódio, toda decisão que ela toma é impulsiva e equivocada. O que não deixa de ser um ponto interessante, porque aqui, o anime trata de umas questões com certa nuance que, olha, são lições que podemos levar para a vida. Estar certo não significa que a decisão é a mais acertada. Ser inteligente não significa necessariamente ser racional.

Porque, veja bem, tudo que ela calcula está correto. As rotas que ela traça realmente chegam aonde ela quer chegar. Mas, ao longo deste episódio, Memempu consistentemente toma as piores decisões possíveis, ou ao menos as aplica da forma mais destrambelhada imaginável. O que acaba por ser uma pequena traição do que é a personagem. Tudo bem, ela é uma criança de 9 anos, eu entendo querer mostrar imaturidade por parte dela. Mas uma coisa é ser imatura; outra é saltar num buraco no chão que foi aberto por um terremoto depois de ela passar a madrugada acordada e enquanto o próprio pai está lutando contra um kaiju. Isso é só burrice, e não é isso que a personagem representa.

E tudo isso, acredito, para tomar partido do lado do Gagumber, porque, no fim, é a filha quem é salva pelo pai. “HEARTS” venceu “BRAINS” neste episódio. Quando começou o capítulo, apostei comigo mesmo que o arco desta semana seria chegar a uma ideia de “equilíbrio”: um pouco de instinto, um pouco de racionalidade, os dois formam a dupla perfeita e só assim eles vão chegar ao fim do mapa de Urorop, etc etc. E, claro, existe o momento final com o paraquedas, uma espécie de piscadela da narrativa, “veja bem, a Memempu também tem sua razão!”. Mas isso ainda não tira o fato de que tudo que ela fez foi retratado de forma negativa. A sensação final é a de que havia uma disputa, e o lado dela perdeu.

Considerando que essa é uma série sobre a empolgação da aventura e da exploração, e que é a Memempu quem quer desbravar os Labirintos, fazer com que o lado adulto e cauteloso “vença” o lado infantil e aventuresco da história soa… estranho. Inesperado, sim (o que quase é uma qualidade em si), mas estranho.

De qualquer forma, o episódio fecha com o aparecimento de um novo personagem, o que, fazer o que, iria acontecer alguma hora. Eu quase queria que eles apenas continuassem explorando o Labirinto, e acredito que um novo personagem tranquilo numa base subterrânea, para mim, é evidência de que vamos começar a explorar o “lore” deste mundo e não sei se isso me interessa (mas isso é coisa minha). Mas também sei que não dava para sustentar o anime todo só com esses dois chegando em áreas novas, discutindo e fugindo de kaijus em computação gráfica.

Continuo interessado na continuidade de SAKUGAN, agora… ainda mais! Porque preciso saber se o tema da história segue as ideias apresentadas aqui, ou elas serão desenvolvidas, subvertidas, evoluídas ao longo do tempo. Continua uma das boas apostas da temporada.

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