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Crítica | SAKUGAN, episódio 1

Numa temporada com poucos destaques além de continuações aguardadas e adaptações de sucessos “cult”, seria fácil deixar SAKUGAN escapar. O anime é adaptação de um novel que ganhou um concurso de ficção, mas não chega a ser nada cultuado por aí; o estúdio, Satelight, não é o tipo de estúdio que gera a maior das expectativas quando tem um novo anime na temporadas (apesar de ser a casa de Macross hoje); os nomes envolvidos na produção não são os mais badalados da indústria hoje (com exceção de Shoji Kawamori). Mas, assim que você der play no primeiro episódio (disponível na Crunchyroll), vai ficar claro que subestimar este anime é um erro.

SAKUGAN conta a história de Memempu, uma menina de 9 anos que já tem diploma de ensino superior (que bom que não sou primo dela…) e vive num mundo subterrâneo, uma sociedade que nunca viu a luz do dia. Ela trabalha com o pai, Gagumber (esses nomes…) na escavação e expansão das colônias, mas o que ela quer mesmo ser é uma “Marker”, os pilotos dos robôs de exploração dos misteriosos labirintos subterrâneos. Aparentemente, ninguém sabe a extensão desses labirintos, mas existe a lenda de uma pessoa que conseguiu mapeá-los por completo, Urorop, mas ela nunca voltou para contar a história.

As comparações com Tengen Toppa Gurren Lagann já estão sendo feitas por aí (e eu entendo), mas eu, particularmente, fiquei mais pensando em Made in Abyss durante esse primeiro episódio. Porém, mesmo a mistura desses dois ótimos animes não forma o total de SAKUGAN.

Sim, esta série tem a força da premissa de TTGL: uma sociedade presa debaixo da terra sem nem sequer saber como é o céu, uma jornada que será feita pela protagonista e que descreve, necessariamente, um caminho de ascensão — previsível, mas, até por causa disso, muito legal de acompanhar. Também tem as características que fazer Abyss um sucesso: é instigante saber que alguém conseguiu chegar aos limites desse mundo, tanto para nós quanto para a protagonista da história (também uma menina muito nova); e é divertido demais ver o espírito de aventura de Memempu, uma personagem que é genial… mas ainda é uma menina de 9 anos, curiosa e destemida. Memempu, desde o design até a expressividade e carisma, com certeza é a melhor coisa de SAKUGAN.

Além disso, uma característica que os dois animes acima têm em comum, e também está presente neste aqui, é a ótima construção de mundo. Aqui, o conceito é até bem simples: a ideia de um mundo subterrâneo com colônias e labirintos e tudo mais não chega a ser surpreendente. Mas o design de produção é o que vende a premissa: é um mundo vivo, uma produção com muita atenção aos detalhes, que realmente nos dá a sensação de que pessoas vivem naquele lugar.

Mas a real força do anime está em algo próprio, além das referências: esta é a história de uma relação entre pai e filha. A dificuldade do choque de gerações, dos dois lados, tanto para a filha que se vê podada pelos cuidados do pai, quanto para o pai, que não sabe traçar a linha dos limites entre precaução e superproteção. E esse é um tema que SAKUGAN é particularmente bom em abordar, principalmente o lado adulto da equação, numa cena bastante pé-no-chão de uma conversa de bar entre Gagumber (esses nomes!!) e Rufus.

O trecho final do primeiro episódio é inteligente ao criar, ao mesmo tempo, a sensação de perigo real, e a oportunidade de colocar à prova o que parece ser o tema central do anime. Gagumber teve de fazer uma escolha, e essa escolha é o tipo de “caminho do meio” que um pai sempre tenta seguir, uma eterna tentativa de incentivar os filhos ao mesmo tempo que os protege dos perigos do mundo. É forte, tocante e empolgante.

A única coisa, para mim, que ficou no caminho, foram os mechas. Com tanta coisa legal acontecendo, tanta coisa pra ver e pensar, é fácil esquecer que SAKUGAN, em tese, é um anime de robôs gigantes contra monstros. O design dos mechas não chega a ser memorável (é funcional, faz sentido para aquele mundo, mas mesmo assim…) e os kaijus (desenhados por Shoji Kawamori, lendário criador de Macross) são prejudicados pela computação gráfica. A cena do ataque dos monstros funciona pelo peso dramático, mas não exatamente empolga como sequência de ação.

Mesmo assim, isso é apenas um asterisco no que se provou uma brilhante estreia e um dos maiores destaques desta temporada. SAKUGAN tem tudo: animação de qualidade, design de personagem com personalidade, uma trama simples e cativante e a promessa de trabalhar bem seus temas centrais. Se mantiver o nível, teremos uma gema preciosa em nossas mãos. (hein? hein? entendeu? desculpa.)

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