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Crítica | Ranking of Kings, episódio 2

Ranking of Kings é uma história sobre normas. É uma história sobre o que se espera de certas pessoas, em certas posições, e sobre como essas expectativas sufocam a individualidade delas a ponto de mudar quem elas são. Não é um tema incomum em animes e mangás, até por conta de o Japão, aparentemente, ter a tendência, socialmente falando, de exigir das pessoas que elas se encaixem em vez de se destacarem. O último episódio de The Heike Story, por exemplo, é muito sobre isso. Mas é inegável que, em Ranking of Kings, seja pela eficiência da narrativa, seja pela empatia que a estética evoca, o tema bate diferente. Porque, no fim, de certa forma, a norma que este anime trabalha é a toxicidade da masculinidade.

Foi um episódio bastante inteligente, do ponto de vista estrutural: metade dele é a história de Kage, o menino-sombra que se aproveitou de Bojji mas agora passou a admirar o príncipe. Sua vida é uma de sofrimento: o clã das sombras, de acordo com sua mãe, vive de assassinar seja quem for que os mandem, pois “nascemos com um corpo feito para esse tipo de atividade”. Existe uma aceitação do que eles acreditam ser a própria “natureza” — não existe um julgamento de certo e errado para o conceito de “matar”, é só o que eles fazem, e isso não influencia em nada em quem eles são. A mãe ama o filho como toda mãe ama o próprio filho.

Mas o clã é caçado porque eles são assassinos, e como matar é errado, os cavaleiros cercam aquelas pessoas e as matam covardemente como punição. Depois de Kage ser ajudado em sua fuga, o que se segue é uma vida na qual se aproveitam dele para cometer pequenos crimes, ele aprende do pior jeito possível como a vida é horrível e efetivamente se torna o que acreditam que ele sempre foi.

Mas o mais importante desse trecho é perceber a humanidade de Kage (o que curiosamente funciona, mesmo com o design do personagem sendo apenas uma mancha preta com olhos): ele não é um assassino ou um ladrão ou uma pessoa ruim, de maneira alguma. Ele é um menino à procura de qualquer tipo de afeto ou companheirismo. É muito triste a cena na qual o homem que se aproveita dele é morto num bar e Kage chora por sua morte. Kage não entendia exatamente o que aquele homem estava fazendo com ele, só achava que era alguém que cuidava dele, como sua mãe antes de morrer. Só depois desses incidentes é que Kage se torna o personagem que conhecemos no início do episódio 1.

E acredito que seja esse o ponto central da história não só do Kage, mas do anime como um todo: o que o menino-sombra vê naquela luta entre Bojji e Daida é um esforço, uma pressão de grupo, para que o principezinho se torne o que ele não é, e é isso que Kage quer evitar.

Depois de passar metade do episódio no ótimo flashback do Kage, a história retoma a luta entre os dois príncipes e o que nós, espectadores, vimos como algo muito maneiro (sua habilidade natural para a esquiva), é na verdade, para o contexto de um mundo que tem um ranking de reis baseado em força bruta e proezas em combate, visto como algo apenas covarde e desonroso. É um mundo no qual mesmo seu guardião, instrutor e única pessoa a se dar ao trabalho de se comunicar com Bojji por linguagem de sinais, o detém no meio do combate e pede que ele lute “como um rei” — o que obviamente faz com que Bojji leve uma surra de Daida. O que Bojji é não é o que esperam que ele seja, então ele precisa deixar de ser quem ele é.

E ele precisa fazer isso para atender a uma expectativa estúpida de masculinidade: lutar “como um rei” é lutar “como homem”, no fim das contas. É trocar golpes. É apanhar e continuar de pé, mesmo que seja mais inteligente o não confrontamento — mesmo que você saiba não apanhar. É não chorar na frente dos outros. É ter outros recursos mais apropriados para si mesmo, mas mesmo assim se sentir pressionado a usar a espadona enorme como todos os outros à sua volta.

É por isso que o episódio funciona tão bem. Ele consegue traçar duas narrativas muito parecidas para personagens completamente distantes — um é uma espécie de bolha viva que viveu de restos e do crime; o outro é um príncipe humano que cresceu rodeado de privilégios — sem parecer forçado. Com a culminação da cena final, com Kage se oferecendo para estar sempre ao lado de Bojji, nós vemos uma amizade verdadeira nascer à partir da identificação mútua. Nós entendemos os dois, nos simpatizamos com os dois, torcemos pelos dois.

É um início fortíssimo para a série, uma evidência do potencial enorme da narrativa, e a prova de que estamos vendo — se o otaku não for afastado pela estética mais infantilizada… o que deve acontecer… — não só um forte candidato à lista de melhores animes do ano, como (talvez, quem sabe) o nascimento de um clássico. É continuar assistindo e ver onde vai dar.

One thought on “Crítica | Ranking of Kings, episódio 2

  • Benicio
    27 de outubro de 2021 at 09:17

    Li a resenha e fui ver o anime, final me emocionei!

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