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Crítica | Pokémon – O Filme: Segredos da Selva

Pode ser coisa da minha cabeça, mas (falando como um grande fã, aqui) toda vez que vejo um filme de Pokémon, eu penso em como essa é uma franquia em crise existencial.

Claro, nunca me parece que quem escreve os filmes está realmente preocupado com o que eu estou dizendo aqui. Mas, ainda assim, todas as escolhas temáticas dos filmes de Pokémon me parecem uma tentativa esquisita de justificar o funcionamento desse universo, e sempre tem alguma coisa que parece fora do lugar. Normalmente, são os temas clássicos de Pokémon que sempre parecem desconexos, principalmente quando o ato de capturar animais e fazê-los brigar uns com os outros é sempre retratado como um ato de amizade. Mas aqui, em Segredos da Selva, o último longa-metragem da franquia, lançado semana passada na Netflix, alguns detalhes muito legais de construção de mundo são adicionados (ou expandidos?), o que é bem legal, mas ainda assim, fica uma a sensação de dissonância.

Pokémon – O Filme: Segredos da Selva (no Japão, simplesmente Coco, o nome original do personagem principal) conta a história do menino Zaza, uma espécie de Tarzan/Mogli do mundo pokémon, que foi encontrado ainda bebê por um Zarude (o novo pokémon estreando neste filme) e criado como um deles numa colônia de espécie. Essa colônia domina e protege um território que contém uma árvore que é fonte de uma água milagrosa com poderes de cura. Um grupo de cientistas está tentando encontrar esse lugar e estudar essa água. E é aí que entra nosso velho conhecido Ash (pra estragar tudo, basicamente).

Segredos da Selva é o terceiro de uma espécie de linha alternativa de filmes da franquia: historicamente, os filmes da série eram extensões da temporada da televisão, sempre focados no pokémon lendário do jogo do momento — já esta nova série começou com Eu Escolho Você, um semi-reboot nostálgico completamente descolado do anime de TV, seguiu com O Poder de Todos e agora chegou ao seu terceiro “capítulo”.

Não existe exatamente continuidade, são histórias completamente independentes, e parece que estão cada vez mais próximos de aperfeiçoar a fórmula dessas histórias autocontidas (o que não deveria ser tão complicado, mas enfim…) porque este é o melhor dos três filmes, de longe, justamente por apostar em uma trama bem menos complicada. Depois de Eu Escolho Você, uma mistureba esquisita que parece o resumo de um anime que nunca existiu; e O Poder de Todos, uma história inchada cheia de personagens desinteressantes; Segredos da Selva é um filme focado. Ele é muito mais próximo daqueles filmes infantis da Sessão da Tarde no qual um homem rico do mal quer destruir a floresta e apenas o pequeno Johnny e seu cachorro Toby podem salvar os animais. O centro do filme é Zaza e sua relação do Papa (o Zarude que o criou) e é isso. O que é ótimo.

Um mundo rico e cheio de possibilidades

Eu vi este filme com meu filho de 6 anos, que é fissurado nos pokémons, mas não em Pokémon, e foi a primeira vez que ele viu um filme da série realmente interessado, o que, pra mim, já é uma evidência de uma produção que sabe o público que tem. Por outro lado, ele não ligou muito pra luta final, quando o vilão resolve ser vilão e atacar o santuário pokémon dos Zarudes. A parte que mostra a vida dos pokémon na selva e a interação entre vários bichinhos o interessou muito mais do que a luta contra um robozão (sim, tem isso também).

Pra mim, o marmanjo de quase 34 anos de idade que ainda vê desenho de criança (no caso, com uma criança — eu tenho essa desculpa, ok?!), essa também foi a parte mais singular da produção. Mas também, a parte mais esquizofrênica (mais sobre isso mais tarde). A comunidade dos Zarudes é muito interessante. Eles têm líderes, anciões, castas sociais, regras, desavenças, relações familiares, é um mundo muito rico. Os Zarudes têm até variações em seu design: uns são mais parrudos, alguns ainda não têm cipós no braço, o ancião tem uma espécie de barba longa… Talvez não seja novidade na franquia (não vi todos os filmes, e faz tempo que não acompanho a série de TV), mas ficou muito legal aqui.

Esse filme me deixou com muita vontade de uma produção completamente focada nas sociedades das diferentes espécies. Um anime inteiro só com os pokémon, na natureza, sem treinadores, apenas os animais formando sociedades, famílias, vivendo suas vidas. Os jogos da série Mystery Dungeon quase fazem isso, mas através de uma espécie de “isekai” com um humano que vira pokémon — não é exatamente isso que eu queria. Talvez o mais próximo disso sejam os pequenos curtas-metragens do Pikachu que costumavam abrir esses filmes. Aquilo era legal.

Velho vendo filme de criança dá nisso

Pode ser só nitpicking de velho (mais uma vez: meu filho de 6 anos não estava nem ligando pra nada do que eu vou dizer), mas esse é um trecho que levanta uma série de perguntas. Por exemplo: se o filme entende que essa espécie, os Zarudes, forma uma sociedade própria, por conta de ser um animal social, por que todos os outros pokémon vivem misturados? Por que aquela floresta tem um Flygon e um Pangoro, e eles vivem juntos, em vez de uma sociedade de Flygons, por exemplo? Tudo bem, alguns animais não vivem em bandos, mas neste filme, existe o bando dos Zarudes e o bando de todos os outros pokémon. Também me incomoda a vontade de desfilar a variedade de bichinhos da franquia com quase nenhuma preocupação com que tipo de pokémon viveria numa floresta tropical densa como a deste filme. Além disso, Zaza, o humano criado por Zarudes, parece falar a língua dos Zarudes; ok, faria sentido. Mas, na realidade, Zaza aprendeu a falar a “língua dos pokémon”. Por que todas as diferentes espécies compartilham a mesma língua? Não que isso já não fosse evidente antes (o Meowth da Equipe Rocket fala com todos eles, por exemplo, não apenas com outros Meowths), mas ainda me incomoda.

Mas, acima de tudo: por que os pokémon referem-se a si mesmos como “pokémon”? Por que os animais selvagens, enquanto falam em sua língua própria, se definem como “monstros de bolso”? Por que se definem a partir das delimitações dos seres humanos? O que me lembra de uma passagem que achei muito curiosa: Zaza, num certo momento do filme, separa uma briga entre dois pokémon na floresta, porque não é bom brigar. Mas, quando Ash o leva para a cidade, o veste com roupas humanas e lhe mostra uma batalha pokémon… ele não vê problema com essa briga. Porque a franquia Pokémon está eternamente tentando se justificar: brigas são erradas, mas batalhas pokémon são esporte. É justo, é controlado, é civilizado. “Não é uma rinha de galo, ok? Agora, parem com as piadinhas”.

Sai a “Amizade”, entra a “Família”

Por outro lado, uma coisa curiosa deste longa é que, ao contrário do usual para Pokémon, o filme não é uma tentativa de justificar suas lutas com a ideia de amizade. Aqui, o foco é o tema da família, o que já é um sopro de novidade em uma série que já bateu na mesma tecla centenas de vezes. A história da relação pai-e-filho de Zarude e Zaza é bem bonitinha — nada que não tenhamos visto em dezenas de filmes infantis, mas bem feito de qualquer forma.

Tem até uma jogada inteligente abrindo e fechando o filme, o único uso bom do Ash ao longo de toda a história (lembram do Ash? Ele está no filme também — talvez, nesta nova série de filmes, o Ash tenha se tornado uma espécie de “Doctor Who”, apenas o avatar através do qual vemos outras histórias. Não deixa de ser um bom uso do personagem): no começo da produção, Ash fala com a mãe por telefone, fica constrangido como todo moleque pré-adolescente e desliga na cara dela. Ao longo de toda a história, depois de ver Zaza passar por tudo que passa e ver o valor que ele dá para a família pokémon dele, essa cena do início é resgatada e subvertida. É bastante satisfatório.

Mas… bem, se você ainda não viu o filme, não leia o próximo parágrafo em itálico, porque, mesmo que seja um detalhe bobo, pode ser um grande spoiler:

SPOILERS!!!

Durante um diálogo qualquer com Zaza, Ash resolve fazer um discurso sobre nunca desistir de seus sonhos, dizendo que a relação do menino com o Zarude lembra muito a relação dele com seu pai. Sim, isso mesmo, Ash finalmente fala de seu pai, dizendo que ele sempre lhe dizia para não dar ouvidos aos outros, e que “o mapa dos seus sonhos já está dentro de você”. E, OK, entendo que o roteiro queira fazer a rima temática com os reais protagonistas da história, mas… nunca ouvimos falar de “pai do Ash”. E o filme abre — e fecha — com o garoto falando com a mãe. Por que não reconhecer o papel dela, uma personagem que já vimos e conhecemos e simpatizamos há décadas? Por que fazer o Ash citar o pai, um personagem basicamente inexistente? Se bem que esse Ash é um Ash alternativo, então…

Um filme decente de Pokémon

No fim, Segredos da Selva é um filme eficiente. Uma produção bonita, que apresenta um mundo rico em uma trama simples, exatamente como deve ser, e ainda consegue construir e concluir suas ideias de forma sucinta e divertida. Tirando toda a reclamação de fã velho e amargo, é um filme que faz o que tem que fazer para quem interessa e sempre deveria interessar. Para o público eternamente rotativo de crianças, conhecer Pokémon através deste filme é uma boa porta de entrada e , no fim, talvez só isso mesmo que importe.

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